Capítulo 1 - Warren
- Júlia Alves Souza Lima

- 23 de jun. de 2022
- 9 min de leitura

Já é outono. Eu odeio essa estação. Meus pés ainda ficam frios dentro das meias, tudo está mais laranja que o normal e já passa da minha quinta noite sem dormir. Tenho ido para a escola cada dia mais tarde, não que fizesse diferença, afinal vou me mudar amanhã. Tenho aproveitado meu tempo sem dormir para embalar o que vou levar comigo, de certa forma estou animada e a insônia não me afetou muito, quero dizer, claro, não dormi, mas ainda não senti sono. 05h30. Meu despertador começa a gritar e me assusta impedindo que eu coloque mais alguns livros na caixa. A última caixa. Confesso que sinto vontade de desarrumar tudo para ter que começar de novo, porém lembrar da visão da janela do novo apartamento em Charlotte é revigorante, talvez por isso eu não tenha sentido sono, a ansiedade fala mais alto que eu. Não que eu queira me mudar de Warren... OK, talvez eu queira. Warren é uma cidade com pouco mais de cem mil habitantes e muitos vizinhos, não há tanto espaço para construir casas como havia em 1940, muitos ainda gostam de chama-la de sítio devido sua área limitada, e por isso eu e meus tios tivemos a ideia de nos mudarmos além da súbita oferta de emprego que meu tio Mark teve a alguns quilômetros daqui. Me levantei do chão e fechei a última de todas a enormes caixas, parei para a encarar o quarto vazio com paredes azuis escuras e agora, mais do que antes, ele parecia assustador. -Ivy! - a tia Suzan me chamou próxima à porta do quarto, quem diria que ela estaria acordada às 05h57? Eu jamais. - Já acordou? Hoje vou te deixar na escola para seu último dia e devo também... - ela bocejou coçando insistentemente os olhos - te buscar. A viagem é âs 19h, tente não se atrasar, por favor. -Tudo bem, tia. - Abracei a caixa que estava comigo ali e caminhei lentamente até o andar de baixo. No momento em que deixei o quarto foi como se tivesse alguém me observando. Nunca uma sensação foi tão assustadora, tentei inutilmente acelerar os passos até o andar de baixo e apenas senti alívio quando pude soltar a caixa já na sala de jantar. Urgh, calafrios. -Bom dia princesa! - Mark é extremamente bem humorado de manhã. Talvez a sensação prévia a esse bom dia tenha sido os calafrios. Nunca saberei. -Bom dia. - murmurei enquanto passava a fita adesiva na caixa - Tem café? -Tem sim... amargo igual você, princesa! - ele disse rindo e recebeu uma gargalhada de Suzan em seguida, eu ri e peguei uma xícara para me servir. - Olha, sei que você não gosta do outono e nem do frio de manhã, mas eu tenho boas notícias. Charlotte tem trezentos mil habitantes a mais que nossa querida Warren, infelizmente com uma área menor, porém já sabemos onde você vai terminar o ensino médio, a escola é ótima, você vai amar! -Essas foram as informações mais aleatórias que eu já ouvi com menos de cinco segundos entre elas. - eu ri e ele mostrou a língua igual uma criança sendo contrariada. Sentei-me em uma banqueta perto do balcão e bebi o café amargo e escuro. Eu estava muito animada apesar de todas as consequências que uma mudança pode trazer: deixar de ver meus amigos, Tom, Jessy, começar eu uma nova escola, até dos meus vizinhos sinto que sentirei falta. Subi para tomar o banho mais demorado da minha vida e aproveitar meus últimos minutos em minha suíte, o novo apartamento não teria uma então, é... rich people problems. Enchi a banheira e acendi duas velas azuis com cheiro de baunilha que eu tinha economizado só para esse momento, fiz alguma espuma e me despi, logo apaguei a luz do banheiro e fechei a minha porta para o caso de minha tia ou tio subirem para retirar as cortinas do quarto que eu, no entanto, não havia conseguido. Deitei na banheiro e fechei meus olhos, eu só precisava ficar pronta às 7h30 então ainda tinha algum tempo, bastante tempo na verdade. Estava sentindo a água quente em contato com meu corpo, o leve som de bolhinhas estourando era tranquilizante e o cheiro de baunilha já havia ocupado todo o cômodo. Ouvi o som de passos na escada, meus tios provavelmente subiram para retirar as cortinas então me acomodei mais na banheira. De repente ouço o barulho de algo caindo no chão o que me tira do meu completo estado de relaxamento, a vela antes acesa ao meu lado saiu rolando até o outro lado do cômodo sem se apagar enquanto a outra soltava um pequeno rastro de fumaça no ar por já não possui fogo. Vi uma sombra à minha frente como se alguém cada vez mais se aproximasse de mim. Me virei rapidamente quase prendendo minha respiração com medo do que eu veria atrás de mim, mas não tinha nada ali. Abri o ralo da banheira e me levantei correndo pegando minha toalha logo em seguida. Sai correndo do banheiro e encontrei as cortinas ainda no quarto. Não eram meus tios subindo as escadas. De perto da cama vi a outra vela se apagar, esse foi meu limite, corri para fora do quarto desesperada sem nem pensar se alguém me veria só de toalha correndo pela casa. -TIA! SUZAN! – fui até a cozinha esperando que alguém aparecesse... Qualquer pessoa – MARK?! – meu sangue começou a ferver, minha pele começou a esfriar e só pensei em pegar uma faca. Corri pela cozinha abrindo todas as gavetas, porém todos os nossos objetos já haviam sido empacotados. Pensei em pegar o telefone e chamar a polícia, entretanto o encontrei com os fios cortados. Essa devia ser minha morte. Ouvi um barulho alto e olhei de relance para a porta de vidro que levava ao jardim nos fundos da casa, um homem de aproximadamente um metro e oitenta correu do meu jardim até um bosque que ficava a uns dez metros da casa. Fiquei em choque por alguns segundos, minhas mãos tremiam e eu suava frio, soltei todo o ar que estava contido em meus pulmões e fechei os olhos segurando firmemente na beirada da bancada da cozinha. Não era uma boa ideia subir as escadas poderia haver ainda alguém na casa além de mim, porém nada mais podia ser feito, eu estava totalmente sem opções. -Ivy? – escutei a tia Suzan me chamando enquanto entrava na casa pela porta da frente, exatamente do lado oposto ao qual aquele homem tinha ido. – O que houve? Você está pálida. -Tinha... Tem alguém na casa. – disse tentando respirar normalmente. -Como assim? Quem? O que houve? – Suzan começava a ficar aflita e eu definitivamente não sabia o que dizer. Ela foi até a garagem e buscou um pé de cabra, do qual eu havia me esquecido completamente, e voltou alguns segundos depois pronta para revistar a casa. A acompanhei em passos leves até o andar de cima para me deparar com minhas janelas sem as malditas cortinas e as velas ainda acesas no banheiro em seus devidos lugares. -Onde estão as... As velas... Elas estavam no chão e... Eu vi uma sombra... O cara no jardim... -Tudo bem, Ivy, está tudo bem. Não tinha ninguém aqui... Acho que você finalmente sentiu a consequência daquelas noites sem dormir. – Suzan disse com a voz doce e passou a mão em meu rosto molhado. – Desça e tome um como d’água, acho que vai se atrasar um pouco para a escola, mas tudo bem, vou ligar para a diretora. Minha cabeça começou a doer e cheguei a me questionar se estava dormindo ou se eu tinha apenas perdido qualquer noção da realidade. Quem era aquele cara? Como ele fez tudo aquilo?... Porque ele fez tudo aquilo? Enquanto eu me recuperava peguei as roupas sobre a cama e as vesti, encontrar Tom e Jessy no meu último dia na escola seria a única coisa capaz de me acalmar . Cheguei ao colégio às 8h45 e fui direto para a sala onde eu teria aula de economia. Eu idolatrava o meu professor e amava toda e qualquer palestra que ele fizesse, mas hoje eu só conseguiria sobreviver a mais um discurso sobre falta de oportunidades desenvolvimentistas no meio rural se eu concentrasse todas as minhas forças em dormir e trocar bilhetinhos com Jessy que se sentava ao meu lado. -Senhorita Dickens... Atrasada? Isso é novidade. – Senhor Andrews disse sem me olhar assim que me sentei em meu lugar, em seguida ele me fitou por cima dos óculos sem mover sua cabeça e sorriu. Logo senti alguém cutucar meu braço, era Jessy com um papelzinho dobrado e um sorriso malicioso, os bilhetinhos chegaram mais cedo do que eu previa. “Atrasada, né... Passou a noite virada com algum cara, tô certa? De qualquer forma, quer matar aula hoje? Precisamos passar esse dia juntos.” – vi de canto que ela apertava os dedos estralando suas articulações ansiosa. “Ok, na aula de biologia, mas eu preciso muito te contar o motivo do atraso e, vai por mim, não teve nada a ver com sexo, festa, ou seja lá o que se passa na sua cabeça.” – rescrevi rapidamente e deitei minha cabeça na mesa no intuito de descansar por alguns minutos fechando meus olhos em seguida. Eu estava andando pelos corredores de uma fábrica. O ambiente era acinzentado e tinha pouca iluminação. À medida que eu andava apareciam mais prateleira e armários... prateleiras, árvores... De repente eu estava em um lago, ou melhor, na borda dele. Olhei para a direita e achei um barco preso por uma corda numa rocha. Entrei no barco e vi ele se tornar uma cama com um colchão alto e estranhamente confortável no qual me deitei. Fechei meus olhos e respirei fundo enquanto sentia o calor do sol sumir e a luz aparecer. O barco bateu na outra margem do rio e meus olhos abriram, foi então que vi algo sobre mim com olhos negros e fixos em meus olhos. -Shhhh. Acordei assustada chutando sem querer a perna da cadeira à frente. -Porra, Ivy! – Melinda sentada à minha frente me repreendeu e eu sussurrei um “desculpe”. A professora de biologia entrou na sala, eu peguei minha mochila e me levantei saindo do ambiente. O cara de capuz me seguiu até nos meus sonhos, definitivamente eu tinha criado um trauma dentro de mim com essa história toda do invasor na casa dos Dickens. Me dirigi até o auditório do colégio que ficava constantemente vazio e lá encontrei Tomas e Jessica, meus melhores amigos, com sorrisos gigantescos e uma cesta de pique-nique. Eles eram pessoas incríveis e eu com certeza sentiria saudades quando me mudasse, não seria fácil viver sem Jessy ou Tom na minha retaguarda só esperando para me ajudar. -Garota conta logo o que você precisa falar. Fiquei cinquenta minutos só pensando o que você passou a noite toda fazendo. - Jessica bateu palminhas como que para me apressar e nos sentamos sobre o palco. -Ivory, sinto muito, mas se você for descrever alguma fantasia sexual noturna eu prefiro não ouvir. - Tom disse fechando as cortinas e sentando-se próximo a nós duas. -Não! Não foi nada sexual, achei que Jessy te diria isso. - Eu ri e abri a cesta, ainda bem ela estava cheia de frutas e sanduíches, eu estava morrendo de fome - Ok, tinha um cara na minha casa hoje de manhã. Acho que um assaltante, sei lá! -QUE?! - juro, eles disseram em uníssono. -Ivory, como assim? Um assaltante? Em plena Warren? Como? - Tomas completou e comeu um morango. -Gente, eu realmente não sei o que esse cara tava fazendo lá. Eu estava no banho e vi a sombra dele como se ele estivesse atrás de mim, daí as velas se apagaram e eu sai correndo. Ele cortou o fio do meu telefone e eu não consegui chamar ninguém. -Bom, pelo menos ele não roubou nada. Você embalaram tudo há semanas. - Jessy disse cruzando suas pernas e procurando um sanduíche na cesta. Ignorei o comentário engraçadinho da minha amiga e prossegui com a história. -Cara, foi muito estranho, quando saí do banheiro minhas cortinas estavam no quarto, sabe? Penduradas na janela, no lugar delas. Minha tia tinha sumido então eu chamei chamei, mas ela não aparecia e eu achei isso bizarro porque ela ia me trazer na escola. Quando ela chegou a gente foi no quarto e PAH! As cortinas não estavam mais lá e as velas estavam acesas no banheiro. Tipo... Como esse cara fez isso se eu vi o momento exato que ele saiu da casa? -Ah vai que ele só queria esconder os rastros? - Tom falou despreocupado quase dando de ombros com a situação - Ele é um assaltante, Ivy, que só não levou nada porque não tinha o que levar. -Ok, mas e os fios do telefone cortados? -É, Tom, a Ivy tá certa, isso é muito coisa de psicopata.- Jessy terminou o sanduíche e voltou a me encarar - Você contou pra sua tia? -Bom, eu tentei. Na hora eu só gaguejava, ela até disse que foi culpa das minhas noites mal dormidas e sono acumulado. -Talvez seja isso. Sono. Olha, isso foi traumático, mas amanhã você já vai dormir numa casa nova, quem sabe até a insônia vai embora? - ele disse olhando nos meus olhos e dando um sorriso que emanava confiança. Tom conversava devagar e sua voz era tão calma e aveludada que praticamente deixava qualquer pessoa com quem ele falasse calma também. Peguei um sanduíche de manteiga de amendoim e comi, tudo era bizarro e confuso, porém bem no fundo eu desejava que esse dia nunca acabasse.


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