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Capítulo 2 - Charlotte


Chegamos no aeroporto às 21h depois de um pequeno atraso porque Suzan não achava as chaves do nosso apartamento, das quais nós evidentemente precisaríamos chegando em Charlotte, as mesmas que ela não quis separar com antecedência como eu havia sugerido. De qualquer forma, fomos às pressas para o apartamento e adivinhem só... A antiga moradora estava lá... Com outra cópia da chave. Fui para meu quarto e senti uma enorme felicidade ao ver uma cama de casal com a cabeceira preta acolchoada. As janelas eram enormes e iam do chão ao teto ocupando dois terços da parede. Me joguei no colchão e fechei os olhos por alguns segundos, se Jessy visse meu quarto viria correndo de Warren. Voltei à sala de estar que tinha janelas tão grandes quanto as do meu quarto, se não maiores, e encontrei meus tios sorridentes olhando a incrível vista do apartamento à noite. Segui direto para a cozinha e me lembrei que não havia nada na geladeira e nem mesmo havia uma geladeira, logo teríamos que comprar comida ou... -Ivy, quer pedir pizza? – Mark adentrou o como com o telefone fixo em mãos sendo seguido pelo fio em espiral. Por sorte a antiga dona o deixou junto com outros pertences. Pedi uma pizza gigante de frango a bolonhesa e me sentei em minha cama para esperar a minha refeição chegar. Nossa mobília chegaria no dia seguinte, portanto eu não tinha nada para fazer a não ser olhar pela janela e tentar imaginar quantas pessoas estavam transando naquele exato momento. Logo esse hobbie me pareceu perturbador e eu parei. Voltei à minha nova cama e me deitei de bruços podendo ter agora uma boa e ampla visualização do quarto. Em frente a onde me deitei tinha um guarda-roupa branco com puxadores acobreados e bem, era só isso. Olhando cuidadosamente o chão de madeira clara vi um pedaço de papel rasgado que eu com toda certeza peguei para ler. “Acordei pela manhã e percebi que meus pais não estavam em casa, eles nunca estavam, eles nunca mais estariam. Depois daquela noite tudo era inebriante, novo e me dava arrepios, um completo misto de sensações e medos diferentes, ap...” Era o fragmento de um livro que eu não conhecia, mas gostaria de terminar de ler, infelizmente a história acabava ali e eu ia dormir cheia de curiosidade essa noite. Foi pensando nisso que o cansaço da viagem me venceu e eu peguei no sono. Acordei no meio da noite, as luzes, em grande parte apagadas na cidade, me fizeram deduzir isso. Me levantei da cama e segui até a cozinha, sobre o balcão estava a caixa de pizza com 4 fatias que fiz questão de começar a comer imediatamente. Meu estômago estava roncando e eu sonhei que estava nadando em uma piscina de batata frita, o que significa que eu estava morrendo de fome. Me recostei no balcão e peguei uma fatia enquanto olhava pela janela acima da pia. Tinha outro prédio ao lado do meu e parecia ser mais antigo com janelas mais sujas e tijolinhos vermelhos compondo toda a parede externa. O prédio era próximo o suficiente para que eu visse meu reflexo na janela vizinha. O apartamento estava vazio. Eu parecia mais alta que o normal e por instinto me movi, foi então que meu reflexo não me acompanhou e eu percebi que o homem de capuz estava me observando do apartamento em frente. No mesmo momento comecei a tremer e meu corpo deu sinais de que minha pressão tinha caído. Fechei os olhos e abri minha boca prestes a gritar, porém quanto voltei a encarar a janela o homem havia sumido. Levantei na manhã seguinte sem ter certeza do que tinha acontecido. Me lembro de ter comido a pizza, mas aquele homem... Será que aquilo aconteceu ou eu estava sonhando? Fui até a sala e me deparei com montes de caixas entrando pela minha porta, Mark estava com um homem que vestia o uniforme da transportadora e eu não contive minha vergonha ao perceber que aquele estranho estava me vendo de pijama, o que consistia em uma blusa maior do que eu estava acostumada a vestir do Nirvana e shorts super curtos, além da minha cara amassada e o cabelo fazendo parecer que eu estava lutando com babuínos. -Bom dia, querida! – Meu tio gritou notando meu constrangimento e eu apenas sorri voltando para o quarto. Vi Suzan passando por mim no corredor e ela apenas soltou um “acordou dorminhoca?”. Resolvi tomar um banho já que eu iria começar a pôr minhas coisas em ordem. O relógio que eu usava em meu pulso marcava oito horas, poxa, ainda era muito cedo! Mesmo assim tomei um banho morno e vesti um macacão jeans de lavagem clara com minha blusa favorita colorida por baixo e permaneci descalça. Fiquei até às sete da noite colocando as coisas em ordem, eu havia apenas almoçado um sanduíche que minha tia trouxe do Subway, portanto eu estava faminta. Não me julguem, às vezes eu sinto muita fome. Saímos para jantar eu, Mark e Suzan em um restaurante chinês a dois quarteirões de distância de nosso apartamento. A noite foi razoavelmente fria e terminou de sugar toda a energia que eu tinha, logo voltamos para casa e eu pude dormir. Coloquei um “pijama” no mesmo esquema do que eu usava de manhã, deitei na cama e me cobri com meu edredom, a janela estava fechada e o aquecedor estava ligado então não me preocupei com frio, eu só queria dormir. Fechei meus olhos e não esperei muito até que eu dormisse profundamente. Acordei de repente sentindo muito frio, cheguei a pensar que nem havia dormido, mas a cidade estava novamente apagada, ou seja, já era tarde. Vi minhas cortinas, as famosas cortinas, balançando então notei a janela completamente aberta. Eu tinha quase certeza que eu a tinha fechado, ou então não haveria motivo para ligar o aquecedor. Me levantei e a fechei por completo, dentro de alguns segundos senti o quarto voltar a ficar quentinho e me deitei novamente. Eu não costumo sentir medo do escuro ou sequer do que há nele, mas dessa vez não pude evitar, tive medo de que havia algo em meu quarto e esse desespero passou a aumentar, me virei e lá estava ele: o homem de capuz no canto do meu quarto aproveitando a escuridão para se esconder. Escondi meu rosto com o edredom e apertei os olhos, ele sumia quando eu não estava o olhando então pensei que isso o expulsaria. Aparentemente não era assim tão fácil. Tirei o tecido grosso do meu rosto e o vi perto de minha cama, em um ato desesperado me cobri novamente, mas dessa vez senti uma pressão sobre o colchão fazendo-o afundar em dois pontos, um de cada lado do meu corpo. Foi aí que ele puxou o edredom e eu pude ver seu rosto branco, a boca possuía dois cortes como se complementassem seu sorriso mórbido, seus olhos estavam inchados e tinha sangue saindo deles. O medo me calou, porém logo tentei gritar, fechei os olhos comprimindo-os o máximo possível e senti algo frio em minha boca. Ele havia tapado meus lábios com sua mão branca e gélida, era quase como um cadáver. -Shhh... - Ele levou um dedo de sua outra mão que segurava uma faca aos próprios lábios e se aproximou de meu ouvido – Volte a dormir. Acordei pela manhã e percebi que meus tios não estavam em casa só pelo fato de olhar as horas e perceber que já era meio dia, deveria estar uma barulheira por aqui. Eu não tinha ideia do que tinha ocorrido na noite anterior, mas depois de ontem tudo parecia inebriante, novo e me dava arrepios, um completo misto de sensações e medos diferentes. Apesar disso me levantei da cama e segui até a cozinha, Mark e Suzan definitivamente não estavam ali. Peguei o telefone fixo e tentei ligar para o celular de Suzan, eu, entretanto, tinha aparentemente errado o número já que um senhor de voz rouca atendeu, não era nem o tio Mark. Do nada senti uma sensação de déjá vu e minha vista embaçou, precisei me segurar na parede, pois estava totalmente desorientada. Eu não conseguiria me comunicar com meus tios, era como se tivessem sido apagados do mapa. Recobrei minha visão e peguei a minha chave da casa, eu ia sair e fazer compras já que nenhum de nós ainda havia feito isso. Chegando ao supermercado peguei leite, ovos, algumas ervilhas, carne, batatas e uma lasanha congelada. Tínhamos condimentos em casa então não me preocupei em pegar mais nada. Me direcionei ao caixa e rapidamente fui atendida, o rapaz que estava trabalhando ali me entregou a nota fiscal e então notei algo estranho. -Er... Desculpe, mas a data impressa tá errada. – eu disse analisando bem o que estava escrito, afinal se houvesse algum problema com as compras eu só teria esse pedacinho de papel. – Hoje são 14, não 17. -Deixa eu ver? – entreguei a notinha em suas mãos e ele torceu o nariz mordendo o lábio inferior de leve. – Na verdade, senhorita, está certo, hoje são 17. -Eu acho que deve haver algum engano... -Vai logo com isso! Hoje são 17, garota e eu estou atrasada! – uma mulher enfurecida gritava na fila e eu corei imediatamente. -Olha, se você quiser pode esperar aqui do lado enquanto eu chamo o gerente. – o rapaz no caixa ofereceu gentilmente, mas eu apenas agradeci e me retirei. O que estava acontecendo? Ao chegar em casa liguei a televisão da sala bem no noticiário e vi o repórter falando sobre a previsão do tempo no dia 17, vulgo hoje. Minha respiração parou, eu fui dormir no dia 13 e acordei no dia 17?! Isso não fazia nenhum sentido! Resolvi esperar que meus tios chegassem em casa para que eu pudesse conversar com eles sobre isso.



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